Por Douglas Silvano — Professor de Educação Física — CREF nº 040024-G/SC

A desvalorização do professor representa uma das contradições mais preocupantes da educação brasileira.

Enquanto o discurso público reconhece a importância dos educadores para o desenvolvimento do país, muitos profissionais enfrentam dificuldades relacionadas à remuneração, à carreira, à sobrecarga de trabalho e ao reconhecimento social.

Como professor de Educação Física, considero necessário questionar essa distância entre o que se promete e as condições oferecidas para ensinar.

Uma sociedade que exige resultados educacionais, mas não garante condições adequadas aos responsáveis pelo ensino, precisa rever seriamente suas prioridades e a maneira como organiza suas políticas públicas.

A desvalorização do professor revela uma contradição na educação brasileira

É difícil compreender como uma profissão frequentemente apresentada como fundamental para o futuro do país ainda enfrenta tantos obstáculos para conquistar reconhecimento efetivo.

Professores são cobrados pela aprendizagem, pela formação cidadã e pelo desenvolvimento dos estudantes, mas nem sempre encontram condições compatíveis com essas responsabilidades.

Na minha visão, existe uma contradição evidente quando a educação aparece como prioridade nos discursos institucionais, mas as necessidades dos profissionais responsáveis por sua execução não recebem a mesma atenção.

Reconhecer a importância do magistério exige medidas concretas, e não apenas manifestações de respeito em datas comemorativas.

Os dados ajudam a dimensionar o problema. Segundo a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) de 2024, divulgada pela OCDE em outubro de 2025, apenas 14% dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental pesquisados concordaram que a profissão docente é valorizada pela sociedade.

O percentual revela uma percepção preocupante sobre o reconhecimento social do magistério. Embora represente um avanço de três pontos percentuais em relação a 2018, permanece abaixo da média de 22% registrada entre os sistemas educacionais da OCDE participantes do levantamento.

Considero que esses números deveriam provocar uma reflexão profunda. Não basta afirmar que os professores são essenciais quando uma parcela tão pequena dos profissionais pesquisados percebe que seu trabalho recebe o devido reconhecimento.

Remuneração insuficiente e carreiras pouco atrativas: o custo da desvalorização

A remuneração é um dos elementos mais concretos do reconhecimento profissional. Professores precisam de formação específica, atualização permanente e capacidade de assumir responsabilidades pedagógicas complexas.

Entretanto, a discussão salarial muitas vezes é tratada como uma despesa a ser contida, em vez de parte do planejamento necessário à qualidade educacional.

A Talis 2024 identificou que apenas 22% dos docentes brasileiros dos anos finais do ensino fundamental pesquisados estavam satisfeitos com seus salários. Na média dos sistemas educacionais da OCDE participantes, o percentual foi de 39%.

Na minha avaliação, não podemos ignorar uma insatisfação remuneratória dessa dimensão. Embora o salário não seja o único fator que influencia a permanência na profissão, sua importância precisa ser reconhecida nas políticas de valorização.

O piso salarial não pode representar o limite da valorização

A Lei nº 11.738/2008 estabeleceu o piso salarial profissional nacional do magistério público da educação básica, posteriormente atualizado por alterações legislativas.

O piso representa um parâmetro legal importante, mas não substitui a necessidade de planos de carreira estruturados.

Um profissional precisa encontrar perspectivas de progressão e reconhecimento pela experiência, pela formação e pelo desenvolvimento de suas competências.

Defendo que a discussão remuneratória considere tanto os direitos estabelecidos na legislação quanto a organização financeira responsável das redes de ensino. Entretanto, dificuldades orçamentárias não deveriam servir para encerrar o debate sobre carreira, planejamento e condições de trabalho.

A educação possui custos, mas a falta de planejamento também produz consequências que precisam ser consideradas.

A precarização dos vínculos profissionais compromete a continuidade pedagógica

A estabilidade e a continuidade do trabalho docente são aspectos relevantes para o funcionamento das instituições de ensino.

Quando as redes dependem excessivamente de contratações temporárias, podem surgir dificuldades relacionadas à permanência dos profissionais, à organização das equipes e à continuidade dos projetos pedagógicos.

Segundo a Talis 2024, aproximadamente 64% dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental pesquisados possuíam contratos permanentes.

A média dos sistemas educacionais da OCDE participantes foi de 81%. No Brasil, o percentual de vínculos permanentes havia diminuído 16 pontos percentuais em relação a 2018.

Esses resultados não significam que todo contrato temporário seja irregular ou que profissionais contratados por prazo determinado ofereçam ensino de qualidade inferior. Existem situações legalmente previstas para essa modalidade de contratação, e a competência profissional não depende exclusivamente do vínculo empregatício.

A rotatividade precisa ser considerada no planejamento educacional

Entretanto, acredito que a organização da carreira deve favorecer a continuidade das equipes sempre que possível. Projetos pedagógicos exigem acompanhamento, conhecimento das necessidades dos estudantes e articulação entre profissionais.

A substituição frequente de docentes pode dificultar esse processo, especialmente quando não existem mecanismos adequados para garantir a continuidade das atividades.

Na minha visão, a administração pública precisa planejar suas necessidades de pessoal com antecedência, respeitando os concursos públicos, os regimes de contratação e as particularidades de cada sistema de ensino. A continuidade pedagógica não deveria depender permanentemente de soluções improvisadas.

A sobrecarga de trabalho não pode ser confundida com dedicação profissional

Outro aspecto preocupante é a naturalização de jornadas extensas e responsabilidades acumuladas.

Muitas vezes, o trabalho docente é avaliado apenas pelo período em que o professor permanece diante dos estudantes, desconsiderando o planejamento, a elaboração de materiais e a avaliação da aprendizagem.

A pesquisa Talis 2024 revelou que professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental que trabalhavam em tempo integral relataram, em média, 40,3 horas semanais de trabalho total. O levantamento também apontou aumento de 4,6 horas em relação à edição de 2018.

O problema não está apenas no número de horas, mas na maneira como as atividades são distribuídas e nas condições oferecidas para executá-las.

A responsabilidade pelos resultados escolares foi apontada como fonte significativa de estresse por 66% dos docentes pesquisados, enquanto 60% mencionaram o excesso de atividades de correção.

Planejamento pedagógico também é trabalho

Considero inadequado esperar que professores preparem aulas, desenvolvam avaliações, acompanhem dificuldades e participem de atividades administrativas sem garantir tempo suficiente para essas responsabilidades.

A própria Lei nº 11.738/2008 estabelece, no âmbito de sua aplicação, o limite máximo de dois terços da jornada para atividades de interação com os estudantes, reconhecendo a importância do tempo destinado às demais tarefas profissionais.

Na minha visão, quando o planejamento passa a depender sistematicamente de períodos pessoais, existe um problema de organização que não deveria ser naturalizado. A dedicação ao magistério precisa ser respeitada, mas não pode justificar exigências ilimitadas.

Professores desvalorizados e aprendizagem: uma relação que merece atenção

A qualidade do ensino depende de diversos fatores, incluindo formação docente, condições socioeconômicas dos estudantes, recursos pedagógicos e organização escolar.

Por isso, seria inadequado afirmar que a desvalorização profissional explica, isoladamente, os resultados educacionais brasileiros.

Entretanto, considero igualmente equivocado ignorar seus possíveis efeitos. Professores que enfrentam dificuldades para planejar, acompanhar individualmente os estudantes ou desenvolver projetos pedagógicos podem encontrar limitações importantes para o exercício da profissão.

O Relatório Global sobre Professores de 2024, publicado pela UNESCO, destaca que a capacidade dos sistemas educacionais de atrair, formar e manter profissionais qualificados está relacionada às condições oferecidas para o exercício da docência.

Cobrar resultados sem oferecer condições é uma política insuficiente

Acredito que avaliações educacionais são necessárias e podem contribuir para identificar dificuldades de aprendizagem. Entretanto, considero que os resultados precisam ser analisados juntamente com as condições de funcionamento das instituições.

Não podemos exigir avanços pedagógicos consistentes sem observar a disponibilidade de materiais, o tempo de planejamento, a formação dos profissionais e as necessidades específicas dos estudantes.

A responsabilização pela aprendizagem precisa ser acompanhada de apoio institucional. Avaliar é importante, mas transformar indicadores em cobranças desconectadas da realidade escolar não resolve os problemas identificados.

A perda de reconhecimento social enfraquece o respeito à profissão

A desvalorização docente também aparece na maneira como os profissionais são percebidos nas relações sociais. Questionamentos sobre a autoridade pedagógica, dificuldades de comunicação e situações de desrespeito podem interferir no cotidiano escolar.

A Talis 2024 identificou que apenas 53% dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental pesquisados concordaram que eram valorizados pelos estudantes em suas escolas. O mesmo percentual foi registrado em relação à valorização percebida por parte dos pais e responsáveis.

Esses resultados precisam ser interpretados com cuidado, pois representam percepções dos participantes e não significam que todas as famílias ou estudantes desrespeitem professores.

Entretanto, considero que os indicadores merecem atenção. O respeito profissional é importante para estabelecer relações educacionais saudáveis e desenvolver atividades pedagógicas em ambientes organizados.

A autoridade docente precisa estar associada ao respeito

Na minha visão, reconhecer a autoridade do professor não significa impedir críticas ou restringir o diálogo. Estudantes e famílias possuem direitos que precisam ser respeitados, e decisões pedagógicas podem ser discutidas de maneira responsável.

Entretanto, discordar de um profissional não justifica intimidação, humilhação ou agressões. A escola precisa estabelecer mecanismos institucionais para lidar com conflitos, protegendo a integridade de todos os envolvidos.

A responsabilidade pela convivência escolar deve ser compartilhada entre gestão, profissionais, estudantes e famílias, sem transferir exclusivamente ao docente o dever de solucionar problemas complexos.

A formação continuada perde força quando não existem condições para aplicá-la

A atualização profissional é indispensável ao magistério. Mudanças curriculares, novas tecnologias e avanços nas pesquisas educacionais exigem oportunidades permanentes de formação.

Entretanto, acredito que existe uma incoerência quando os professores são constantemente cobrados por inovação, mas não recebem os recursos necessários para desenvolver práticas diferentes.

A Lei nº 14.817/2024 estabelece diretrizes para a valorização dos profissionais da educação escolar básica pública, contemplando planos de carreira, formação continuada e condições de trabalho favoráveis ao processo educativo.

Na minha avaliação, esses elementos precisam caminhar juntos. Oferecer cursos sem garantir materiais, infraestrutura ou tempo para planejamento pode limitar a aplicação dos conhecimentos adquiridos.

A formação profissional não deveria representar apenas o cumprimento de exigências administrativas. Seu objetivo precisa estar relacionado ao desenvolvimento docente e à melhoria das experiências de aprendizagem.

O poder público precisa responder pela distância entre a legislação e a realidade

A valorização dos profissionais da educação está expressamente reconhecida no artigo 206 da Constituição Federal. A legislação estabelece princípios relacionados à carreira, à remuneração e à qualidade do ensino.

Apesar disso, a existência de normas não garante automaticamente sua implementação adequada. É necessário acompanhar como os diferentes sistemas educacionais organizam suas políticas de pessoal, seus investimentos e suas condições de trabalho.

Considero que essa distância entre o reconhecimento legal e a efetividade das políticas precisa ser examinada com rigor. Governos e administrações possuem responsabilidades que não podem ser substituídas por discursos sobre a importância da educação.

Valorizar exige planejamento e prestação de contas

União, estados, Distrito Federal e municípios possuem competências distintas no financiamento e na organização das redes de ensino. Por isso, qualquer avaliação precisa considerar as responsabilidades legais e os recursos disponíveis em cada esfera.

Entretanto, a complexidade administrativa não elimina a necessidade de transparência. A sociedade precisa conhecer os critérios utilizados para organizar carreiras, contratar profissionais, oferecer formação e estabelecer prioridades orçamentárias.

Na minha visão, o reconhecimento docente deve aparecer em políticas verificáveis, com objetivos definidos, recursos planejados e acompanhamento dos resultados. Sem esses elementos, a valorização corre o risco de permanecer restrita ao discurso institucional.

A profissão docente precisa ser atrativa para as novas gerações

A desvalorização dos professores também provoca uma discussão sobre o futuro do magistério. Sistemas educacionais precisam atrair novos profissionais e oferecer condições para que docentes experientes permaneçam em atividade.

O relatório da UNESCO publicado em 2024 estimou uma necessidade global de aproximadamente 44 milhões de professores adicionais para alcançar a universalização da educação primária e secundária até 2030. Trata-se de uma projeção mundial, e não de uma estimativa específica para o Brasil.

O documento destaca a importância de políticas de recrutamento, formação e permanência profissional, reconhecendo que a atratividade da carreira representa um desafio para diferentes países.

Acredito que esse debate merece atenção no contexto brasileiro. Uma carreira sem perspectivas claras de desenvolvimento pode enfrentar dificuldades para atrair e manter profissionais qualificados.

Entretanto, não considero adequado afirmar que os jovens deixaram de se interessar pelo magistério de maneira generalizada. A própria Talis 2024 identificou que 58% dos professores brasileiros iniciantes pesquisados haviam escolhido a docência como primeira opção profissional.

Esses dados mostram que existe interesse pela profissão, embora persistam desafios relacionados às condições oferecidas para exercê-la.

Não existe educação pública forte quando o professor é tratado como secundário

Acredito que a discussão sobre desvalorização docente precisa provocar uma análise rigorosa das prioridades educacionais.

Não considero coerente reconhecer a importância da educação para o desenvolvimento do país e, ao mesmo tempo, tratar as condições de trabalho dos professores como uma questão secundária.

A profissão exige formação, atualização, responsabilidade e participação constante no processo de aprendizagem.

Esses requisitos precisam estar acompanhados de remuneração adequada, carreira estruturada, respeito profissional e condições institucionais compatíveis com as atividades desenvolvidas.

Também considero necessário reconhecer que os professores possuem responsabilidades relacionadas à qualidade do próprio trabalho.

Valorizar a profissão não significa afastar avaliações, critérios de desempenho ou compromissos pedagógicos. Significa garantir que essas exigências sejam acompanhadas dos recursos e das condições necessários para seu cumprimento.

Os dados da OCDE e as recomendações da UNESCO demonstram que o reconhecimento social, a remuneração, os vínculos profissionais e a organização das atividades são questões relevantes para o futuro da docência.

Na minha visão, a sociedade não deveria aceitar como suficiente um modelo no qual a dedicação individual precisa compensar continuamente deficiências estruturais. O compromisso dos profissionais é importante, mas não substitui a responsabilidade das instituições.

Uma educação que exige muito de seus professores precisa oferecer condições proporcionais às responsabilidades que lhes atribui.

O debate sobre qualidade do ensino público deve considerar a aprendizagem dos estudantes, a eficiência da gestão e o uso responsável dos recursos. Entretanto, precisa incluir, com a mesma seriedade, as condições profissionais daqueles que desenvolvem diariamente as atividades educacionais.

Defendo que a valorização docente deixe de ser tratada apenas como uma intenção e passe a ser acompanhada por medidas concretas, transparentes e verificáveis.

Afinal, o impacto da desvalorização não se restringe à trajetória profissional de quem ensina. Suas consequências podem alcançar a continuidade dos projetos escolares, a organização das instituições e as oportunidades de aprendizagem oferecidas aos estudantes.

Reconhecer essa relação é um passo importante para construir políticas educacionais mais consistentes e compreender que o fortalecimento da escola pública também depende da maneira como seus profissionais são tratados.

Artigo de opinião — Douglas Silvano — CREF nº 040024-G/SC

Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte.

Créditos da imagem: https://www.pexels.com/pt-br/foto/professor-experiente-em-frente-ao-quadro-negro-39190873/


Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte!

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